Estamos de casamento!!

O convite foi feito, vamos a um casamento!! Ficámos contentes por testemunhar um enlace tão importante na vida de um casal.Tinha imensa curiosidade em saber como era um casamento em Timor.

Para além de podermos ir ao casamento ainda fomos convidados a participar nos preparativos do grande dia! Fantástico! Estava radiante com a hipótese de ter tal experiência. O casamento é de dois professores timorenses que vivem na comunidade SOLS na escola onde também vivemos. A cerimónia seria na igreja, mas o almoço e a festa era na escola. Por motivos financeiros a boda realizava-se na escola e por isso havia todo um trabalho a fazer antes do casamento, foram distribuídas tarefas a diferentes grupos. Ao meu grupo calhou a parte de preparar a comida para o casamento. Mas quando digo preparar a comida, não é ir ao talho comprar carne e cozinhá-la. É mais ir ao quintal buscar a vaca e o porco e matá-los. O Ricardo saltou logo a parte de ajudar a matar os bichos, nem tão pouco conseguiu assistir. Depois de mortos lá foi ajudar a meter os animais para dentro de uma truck. Em peso bruto eram uns 10 rapazes a tentar levantar a vaca do chão e mete-la para dentro do camião. Mas o nosso maior espanto foi quando começamos a ver o resto do grupo a ir também para dentro do camião. Tínhamos que ir para casa do noivo desmanchar a vaca. Tanto a mim como ao Ricardo fez-nos impressão ir no camião com a vaca morta ali aos nossos pés. Enfim há coisas que custam assistir mas temos que conseguir libertar a mente do “horror”, do “errado” e aceitar a vida de um povo que está a 50 anos atrás de nós. E lá fomos para casa da família do noivo que estavam já à nossa espera. Calorosamente fomos recebidos com um chá de boas vindas. Éramos os únicos malais, se nós estávamos contentes de participar num evento tão importante eles também estavam contentes de nos ver por ali. A divisão de tarefas era fácil os homens desmanchavam a vaca e as mulheres cortavam a carne em pedaços. Durante mais de duas horas tive a cortar carne de vaca, as minhas mãos ensanguentadas e já tinham dificuldade em segurar bem a faca, para não falar do cheiro com que estas ficaram mesmo depois de serem lavadas. Crazy!

Uma vaca inteira foi cortada em pedaços e pedaçinhos bem pequenos, é uma estragação, passaram por mim lombinhos, costeletas e nacos de carne…. eu sabia bem o que lhes fazia. Há não sei quanto tempo que não comia carne e ver a forma como eles a cortavam…é um crime assistir. O Ricardo ainda se sentiu tentado em desviar uma costeleta J

Os ossos foram aproveitados para fazer sopa, e tudo o que seja tripas e órgãos, também são cortados em pedacinhos e são cozinhados. Nada se deita fora, tudo é aproveitado! O nosso grupo já tinha a tarefa acabada, agora a família encarregava-se de passar a noite toda a cozinhar para o grande dia.

…………

Estava tudo preparado a escola estava linda, toda enfeitada e decorada, toda a gente trabalhou em alguma coisa. É lindo ver esta entreajuda, esta partilha. As pessoas estão sempre prontas para ajudar, as vezes nem é preciso pedir, vão-se juntando e juntando, quando se vai a ver já está um aglomerado de gente e fazem daquela reunião um momento de conversa, de brincadeira, de partilha. Estava tudo pronto para receber a festa de casamento da Sónia e do Aje. Este casamento e segundo o que me explicaram não era bem representativo da realidade de um casamento timorense. Era um casamento muito simples com poucos convidados.  Ao longo da cerimónia fomos apercebendo que talvez este casamento tenha sido mais um ritual obrigatório do que propriamente uma vontade dos noivos. Este casal vivia na escola mas por não serem casados não podiam dormir no mesmo quarto,andavam assim já a um ano. A família para aceitá-los e vê-los como um casal precisava da cerimónia. No fundo era o que acontecia em Portugal no tempo dos nossos avós… Ao longo da cerimónia não vimos aquela felicidade estampada na cara dos noivos. Aquela alegria e euforia. Secalhar aqui em Timor é assim não sei…mas fiquei com essa sensação de ser mais uma obrigação!

A cerimónia foi às 9h na igreja, mas o noivo pôde ver a noiva antes, ambos se vestiram na escola e foram juntos no carro. A entrada na igreja é feita pelos noivos de braços dados, juntos caminham até ao altar. Durante uma hora assistimos à missa em tétum mas com algumas passagens em português. A noiva evoca as palavras “Sim aceito” assim como o noivo, a troca de alianças é feita e o padre dá autorização para cumprimentar a noiva. Sim não há cá beijinhos na boca isso ainda é muito à frente! Envergonhados dão dois beijos na cara um de cada lado. Os noivos ficam oficialmente marido e mulher. A igreja permanece em silêncio sem grande euforia por parte dos convidados, é uma cerimónia séria não há barulho, apenas um grande respeito pelo o momento, os pais emocionados abraçam os seus filhos. Depois da igreja há as típicas fotos com os convidados e depois à a sessão fotográfica na praia só com os noivos.

Entretanto os convidados deslocam-se à escola à espera da chegada do casal. Está tudo vestido a rigor, a melhor fatiota sai do armário e vaidosamente desfilam, nos seus fatos e vestidos. Um verdadeiro regalo assistir a tudo isto.

Com uma grande salva de palmas recebemos os noivos e temos a indicação que o almoço está à disposição, em jeito de bufet começamos almoçar. Temos à nossa disposição, salada, omelete, uns fritos, qualquer coisa parecido com rissóis, noodles, arroz, um frango à brás com cogumelos (que estava muito bom) e carne de vaca cozinhada de diferentes maneiras. A comida não há em abundância (quando acabar, acabou), mas há o suficiente para termos uma refeição mais completa e composta. Para a sobremesa temos a mesa dos doces com gelatinas e pudins.  As bebidas resumem-se a sumos, água e coca cola, o álcool por ser na escola não foi permitido, mas não é por causa disso que a malta não se diverte. Sem uma gota de álcool estes convidados divertiram-se como se não houvesse amanhã. Dançam, saltam, riem-se o calor aperta a camisa fica toda suada, mas a festa continua, as raparigas descalçam os saltos altos, metem as sabrinas e continuam a dançar. O estilo de música é sempre a mesma, assim como a forma de dançar, bem agarradinhos, praticamente não saem do lugar. Sou desafiada a dançar uma música, os passos não são difíceis e rápidamente entro no jogo do movimento e partilho o meu gosto por festa com este povo “irmão”. O Ricardo pé de chumbo, não dançou nem uma música, fica como sempre a observar-me a divertir. Mas o mais engraçado é que os timorenses, vinham sempre pedir autorização ao Ricardo para dançarem comigo e depois da música terminar acompanhavam-me até ele e respeitosamente agradeciam-lhe por ter deixado dançar comigo. Eu nestas coisas divirto-me sempre à grande e adoro tudo o que envolve o contacto, a conversa, a mistura de culturas. Foi uma tarde bem passada.

Ao contrário do que se possa imaginar os noivos não se divertiram assim tanto, não sei se normalmente é assim, sabíamos que este casamento não era o retrato exacto de uma casamento em Timor, normalmente vão a um restaurante à mais comida, mais festa, mais convidados e que pode durar um dia e uma noite inteira. Mas mesmo assim foi um dia bonito. Terminou por volta das 17h.

Agora os noivos já podiam dormir juntos e dentro de dias partiam em Lua de mel, para a vizinha indonésia (Timor Oeste), usufruir de uma semana cheia de amor sozinhos. Sim porque mal casam a primeira coisa que têm é filhos, passados de uns meses anunciam a chegada do novo membro da família.

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