Ilha de Ataúro – Parte III: À procura do tesouro

Passado 2h30 e depois de atravessar aldeias isoladas, escalar rochas, passar por uma floresta densa e por uma mãe timorense que transportava coisas na cabeça e se fazia acompanhar por duas pequenas crianças, finalmente chegamos a Adara! O mais difícil de suportar para além de irmos carregados com as mochilas é mesmo o calor! Nos últimos 40 minutos encontramos um timorense que nos aparece do nada, atrás de nós e acompanha-nos até à aldeia. De chinelos, diz que faz este percurso com frequência e que não demora muito mais que uma hora a fazer! O percurso para lá tem partes boas, planas, com sombras e outras partes o declive era a descer. Mas mesmo assim custou-me bastante, estou mesmo em má forma física. Ao Ricardo também lhe custou mas comparado comigo!!!

Adara é uma aldeia piscatória com meia dúzia de habitantes, que fica completamente isolada. Não há estradas e só é acessível pelo caminho que fizemos a pé ou por barco. Na praia está um humilde resort chamado “Mario’s Place”. Fomos recebido pelo dono que se apresenta como “Super Mário” um timorense, ainda novo, super simpático, com um super sorriso. A sua boa disposição e a sua alegria, consegue contagiar qualquer pessoa. Ficamos logo rendidos à simplicidade deste rapaz, que nos recebeu de braços abertos deixando-nos acampar! Montamos a nossa tenda na praia, junto ao mar, o final do dia estava a chegar, o sol começa a muda de cor, a esconder-se entre as nuvens. Estávamos felizes por tudo o que nos estava acontecer. Foi um dia muito intenso, conhecemos pessoas fantásticas que nos proporcionaram de uma forma simples, tanta coisa. São estes gestos, estas pequenas demonstrações de afecto que no nosso mundo ocidental se vão perdendo e que aqui ganham uma outra dimensão e deixam-nos a pensar….

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Um verdadeiro luxo

O resort tem 4 bungalows e de facto estava cheio, por um grupo de amigos que os tinham alugado para passarem o fim de semana. O grupo era constituído por um casal de portugueses (claro!) um casal oriundo da Turquia, um casal holandês e um australiano. Simpaticamente convidaram-nos para nos juntarmos a eles. Ao por do sol os rapazes fizeram uma futebolada e as ladies, sentadas na areia, bebiam um vinho branco e comiam queijo. Há melhor cenário que este numa praia deserta?!

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O Por do sol em Adara

Quando voltamos já o “Super Mário” (como gosta que o tratemos) tinha o jantar pronto. Fizera com a sua família, um simples buffet composto por diferentes vegetais, peixe grelhado, arroz, noodles e omelete. Foi a melhor refeição que já tínhamos comido em Timor. Como se lembram nós não comemos lá muito bem na escola e este buffet para nós era um luxo! Estava mesmo saboroso.

Depois de jantar o grupo fez uma fogueira e fomos contemplados com um céu repleto de estrelas. Só nos apetecia ficar a noite toda a olhar para aquela maravilha. Nem sabia que o céu tinha tantas estrelas. Foi um momento mágico e ímpar! (engraçado também foi quando o Super Mário nos disse que em Adara não havia mosquitos, e realmente deve ser o único lugar na Ásia. Mosquitos nem vê-los).

De manhã acordamos cedo para ver o nascer do sol, o tempo estava um pouco encoberto e o sol apareceu escondido nas nuvens. Os primeiros animais começaram a surgir na praia, é normal ver-se porcos, galinhas e cabras a passearem no areal livremente. Estes animais têm dono, não sei como é que controlam de quem é quem. É uma boa questão que tenho que fazer!

A nossa odisseia ainda não tinha terminado, ainda tínhamos que caminhar mais para puder ver o “lugar secreto” que tanto o Nuno e a Rosa nos falaram. A praia fica em Atecrú uma pequena aldeia também isolada, só acessível de barco ou pela praia mas só quando a maré baixa. No mapa  tínhamos como referência que o percurso se podia fazer-se em 45 min. Pois bem nós demoramos 1h30! O caminho é todo feito por cima de corais e não é nada fácil caminhar por cima deles. Mas a caminhada matinal valeu a pena, a praia é formada por uma enorme baía de areia branca, envolvida numa densa floresta primitiva. O mar é de águas límpidas com uma barreira de corais virgem e intacta. Não deu para explorar muito a praia, como estava maré baixa o mar estava distante e não fomos a banhos. Também estávamos com algum  receio que a maré subisse e não conseguíssemos voltar a Adara. Mas uma coisa é certa este sítio é mesmo mágico e nós queríamos cá voltar.

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A caminho de Atecru

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Uma timorense aproveitou que maré tinha descido para se deslocar 

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A chegar à praia de Atecru

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Praia de Atecrú

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Em Atecrú

Quando chegamos a Adara fomos explorar o jardim subaquático e fazer snoorklin, vimos uma bonita estrela do mar azul e uma grande variedade de corais. O tempo passa, já estava na hora de irmos almoçar e depois fazer-nos à estrada, voltando para Beloi. Credo! Foram 4 horas de sacrifício, se para a ida foi a descer, para a volta tínhamos que subir. Não foi nada fácil fazer o caminho de volta, quase que tive que carregar a Katy às costas. Queixava-se de tudo, das bolhas nos pés, depois tivemos que parar para ela meter pensos, começou a ficar com falta de ar. O calor mais o esforço de estar a subir deram cabo dela. Eu bem lhe digo para ela fazer desporto! Tive que carregar a mala dela para ver se se aguentava, opá a dada altura começou a dizer que estava aflita para fazer chichi, depois queria fazer cóco! Este percurso dava “um filme de sete cabeças” Mas lá conseguimos chegar a Beloi. Confesso que também me custou a fazer o regresso.

Fomos directos ao Barry, que simpaticamente disponibilizou os balneários do seu hotel para tomarmos banho. Já mais frescos e compostos da tareia jantamos no restaurante do resort. Mas agora tínhamos uma outra preocupação, era domingo e tínhamos que arranjar forma de voltar para Díli. Barry informou-nos que por volta das 3h da manhã (madrugada de domingo para segunda) os pescadores saíam de barco para Díli. Havia também um casal interessado em fazer essa travessia, e ficamos aconhecer o Steve e a Amanda um casal jovem do Canadá (viajavam há 8 meses e não sabiam quando acabavam, que qualidade!!) e juntaram-se a nós. Ainda era cedo, oito da noite, tínhamos que dormir nalgum lado, como tínhamos que devolver a tenda à Rosa fomos ter com eles a uma outra aldeia que se chama “Vila” voltamos a montar a tenda (num terreno da igreja que serve de apoio à comunidade) dormimos umas horitas e às duas e meia da manhã, em plena escuridão da noite fomos à procura dos pescadores que fazem as travessias. Quando chegamos à praia, estava tudo muito escuro e com as laternas dos telemóveis, pudemos ver algumas pessoas (timorenses)  a embarcar nuns barquitos de madeira. Parecia mesmo aqueles barcos que fazem travessias com os refugiados no meio da noite.

Eu gosto de aventura, mas entrar naquele barco com aquelas pessoas todas (cerca de 20), sem colete de salvação, sem se ver nada a atravessar aquele mar. Parecia-me muito arriscado. Estávamos todos com algum receio e juntamente com os canadianos decidimos ir ver se havia um barco maior. Pois tinham dito ao Steve e à Amanda que se fosse para ir, para irmos preferencialmente num barco maior. Caminhamos uns 10 minutos ao longo da praia e encontramos um barco atracado no mar. Não era muito maior mas transmitia pelo aspecto mais segurança. Mas não tivemos sorte não estava ninguém junto ao barco, ainda esperamos na esperança de aparecer o pescador mas nada. Estávamos tramados, só tínhamos duas hipóteses: arriscar e ir naqueles barquitos atravessar o pacífico, numa travessia que demora 3 horas ou esperar pelo dia seguinte e ir num speed boat e pagar 35$ por pessoa. Tínhamos que decidir rápido porque entretanto os pescadores partiam. Não conseguíamos decidir por um lado tínhamos o medo por outro lado não queríamos pagar tanto. Voltamos à vila ee fomos acordar o Nuno para nos ajudar a decidir. O Nuno percebeu logo a nossa inquietação e foi connosco à praia falar com os pescadores, ficamos a saber que o barco maior não iria fazer a travessia, mas que poderíamos ficar descansados que o mar estava muito calmo e que o próprio Nuno já tinha feito a travessia e tinha adorado a experiência. Por isso ele encorajou-nos a ir e disse-nos para desfrutar da beleza e da magia que esta travessia nocturna pode proporcionar. Mesmo o pescador garantiu-nos que não havia perigo e que era seguro. Convencidos arriscamos e lá fomos num barco com 3 pescadores locais. Acabamos por ir num barco sozinhos com o casal do Canadá, porque os outros barcos já tinham partido. Há conta disso a travessia já não nos ficou por apenas 5$ por pessoa mas sim por 12$.

Por volta das 03h15 da manhã arrancamos no nosso barquinho com o Timão (pescador que falava umas coisas em português) pôs uma esteira para nos deitar-nos e deu-nos um plástico para nos cobrirmos da água e do frio. Devo admitir que estava como os índices de adrenalina no máximo, mas assim que entramos na água deu para ver que o mar estava calmo e que a travessia seria tranquila. Correu tudo muito bem, foi um dos momentos mais especiais e mágicos que alguma vez já vivemos. Estar no meio do pacífico a observar um céu todo ele estrelado e ainda ser iluminado por um mar cheio de plancton foi lindo e maravilhoso.

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Todos borradinhos;-) 😉

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Que bom um barco para iluminar

Para terem uma ideia do espectáculo, tentem imaginar o efeito de uma rebarbadora a cortar ferro e a saltar faíscas. Esse era o efeito do nosso barco a tocar no mar e a fazer brilhar os plancton (micro organismos luminosos)

Por volta das 06h da manhã somos presenteados com a chegada do sol ao porto de Díli e dá-se como terminada a nossa travessia. A Katy ainda conseguiu passar pelas brasas mas eu estava cansado. Despedímo-nos do Timão, do Steve e da Amanda e fomos de táxi para a SOLS.

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Já a chegar a Díli

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O nosso barquito

Foi um fim de semana incrível, vivemos e experiênciámos as coisas com muita intensidade. Foi tudo muito bom. Sem planos, sem nada combinado tivemos uma das mais bonitas experiências da nossa viagem. Conhecemos pessoas incríveis que nos proporcionaram momentos inesquecíveis. Um bem haja ao Nuno e à Rosa que foram os nossos primeiros amigos em Timor. Em Ataúro ficaram coisas por visitar: a Vila, ir à praia de Akrema, fazer mergulho. Havemos de voltar de certeza até porque prometemos ir ajudar a “Na Terra”.

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