Ilha de Ataúro – Part I: Aqui vamos nós!

Por volta das das 8h da manhã embarcamos no ferryLiberty” com destino a Ataúro. O ferry é grande e por só haver, uma vez por semana, vai sempre cheio. Não só de pessoas mas de frutas, comida, objectos, colchões, animais eu vimos de tudo a entrar para dentro do barco. Para os timorenses tudo é possível transportar, andam sempre com “tralhas” às costas. Lá entramos e subimos até ao deck do barco, encontramos umas cadeiras livres com sombra e assentámos arriais.

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Leva-se tudo!

À nossa frente, no chão sentaram-se 3 pessoas, pela pinta 2 eram tugas (um homem e uma mulher) J e o outro era estrangeiro. Animados colocaram as suas coisas no chão e abancaram. Notava-se que esta não era a sua primeira viagem e já deviam de estar em Timor à algum tempo. Nós até pensamos “bem estes estão bem animados, não vamos ter sossego” e ainda bem que não tivemos. A Katy ficou contagiada com a boa onda deste grupo de três pessoas e decidiu meter conversa. Coincidência das coincidências estas pessoas (o Nuno, a Rosa e o Ombat) pertenciam à associação “Na Terra”, uma ONG criada por portugueses e que me tinha sido recomendada pela Joana (do blog Globonautas) onde teve a fazer voluntariado durante um mês. Não é fantástico! Ficámos entusiasmados e felizes por conhecer estas pessoas que se revelaram no imediato boas pessoas, conversávamos como se já os conhecesse-mos desde sempre. Partilharam as suas filosofias de vida, as suas ambições.  O Nuno já está em Timor à 6 anos (e era ex-professor) a Rosa à 10 (também ex- professora) e o Ombat à menos de um ano (nem sei qual era a sua profissão). Chegaram a Timor como quase todos os portugueses, para dar aulas, mas ao fim de uns anos leccionar já não alimentava os seus corações e sentiam que podiam ajudar o povo timorense noutros ramos, por isso juntaram-se à organização “Na terra”, que tem como princípios a permacultura, a sustentabilidade e a comunidade local. Estão neste momento a iniciar um projecto (relacionado com os princípios da permacultura), super interessante na ilha de Ataúro. Partilharam connosco o seu lugar mágico na ilha, mostram-nos fotos e descreveram o local como sendo um dos lugares mais genuínos e virgem em Timor. Ficámos entusiasmados, não só para conhecer o tal lugar, mas também porque nos identificamos com o projecto, com a personalidade e o modo de vida destas pessoas. E pensamos no imediato que também queríamos ajudar de alguma forma, o Ricardo com os seus conhecimentos de redes de água podia ser uma boa ajuda.

Por mim passava horas a conversar com eles, tinha tantas perguntas para fazer, mas a viagem era só de 2h30 e a minha cabeça já dava sinais de tonturas e desconforto. Tive que me calar olhar para o horizonte e pensar em nada. Não é que o mar estivesse bravo, mas sempre que ando de barco fico com tonturas. Nem eu nem o Ricardo enjoamos, mas eu fico com muitas tonturas e custa-me um bocadinho.

Pelo caminho é hábito ver-se golfinhos e até há relatos de quem tenha visto baleias. Por estar distraída a conversar e não prestar atenção ao mar não vimos nenhum “amiguinho”. Mas creio que também ninguém viu.

Mas consegue-se ver um pedaço de terra montanhosa a flutuar no mar, mas ainda seca (fruto da época em que estamos agora), cercada de uma água azul límpida, que à medida que o Liberty se aproxima da costa se vê cada vez mais e melhor as diferentes paletes de cores.

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O que mostram os meus olhos 🙂

O desejo de pisar e sentir este recanto com pouco mais de 9mil habitantes vai crescendo, tanto ou mais como a montanha cresce aos meus olhos. Estamos a chegar e já se vêm pessoas à espera das cordas do Liberty para atracar. Chegamos a Ataúro, ao sítio onde dizem ser um dos locais mais característicos e genuínos de Timor. A vila onde atracamos chama-se Beloi e seria a primeira que iríamos visitar.

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A água é de um azul!!!

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Liberty ferry

Combinamos com os três mosqueteiros almoçar no mercado, enquanto nós íamos conhecer a vila, eles iam ter um reunião de trabalho.

Não tínhamos feito nenhum roteiro do que fazer em Ataúro, apenas tínhamos em mente que queríamos visitar a SOLS. Perguntamos a este e àquele timorense e foi fácil dar com a escola. Entramos pelo terreno a dentro e avistamos uma adolescente, apresentámo-nos e fomos recebidos como Reis. Fizeram-nos uma visita guiada às instalações e orgulhosamente mostravam-nos a sua escola, esta apresenta-se com uma construção em bambo, muito simples, humilde, com apenas 3 bungalows, mas muito bem cuidada e arranjadinha. Conversamos um bocadinho, com pouco mais de 10 estudantes (esta SOLS tem poucos alunos) e despedímo-nos com a promessa de um dia iríamos voltar e ficar mais tempo, pois foi com tristeza que aqueles olhos nos olharam quando lhes dissemos que não íamos dormir nas suas instalações.

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Quando começo a escrever o blog fico sempre com a sensação que podia ter tirado mais fotos. Só tirei esta da escola.

Continuamos em modo de turistas, passeámos e observámos esta terra timorense, vêem-se casas modestas, simples mas também umas feitas de tijolos pintadas de cores garridas (vermelhas, azuis, verdes e amarelas), têm jardinzinhos com flores mas também têm árvores grandes (talvez centenárias, a olhar pela grossura e estrutura dos troncos). As ruas não estão alcatroadas, mas são largas, têm poucos carros (apenas os necessários para um ou outro transporte mais difícil) e umas motitas que funcionam como taxis. É na rua que tudo se passa, estas estão cheias de vida, de gente, de agitação, mas é uma agitação tranquila curiosamente, talvez porque anda tudo à vontade, de forma livre e em perfeita sintonia. Na mesma rua onde passam homens e mulheres carregados de coisas, estão vendedores ambulantes, crianças que brincam descalças, jogam à bola ou divertem-se a andar de bicicleta a desviarem-se dos porquitos, das cabritas ou das galinhas com os pintainhos. Cada pessoa que nos via, todas elas nos sorriam (novos, velhos crianças) e cumprimentavam-nos com um “Botardiii”, pareciam felizes por estarmos a visitar a sua terra e nós também estávamos felizes por estar ali e retribuíamos com um simpático sorriso.

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Numa das ruas de Beloi, Ataúro

(Agora é que estou a ver que tenho tantas e boas fotos registadas na minha memória e que não foram captadas com a máquina.)

Junto do Porto de Beloi há um mercado local muito autêntico com a venda de peixe seco em particular. No chão as mulheres vendem o que o mar e a terra lhes oferece, peixe, algas, ameijoas gigantes, tomates, batatas, vegetais e frutas. Vendem artesanato, àguas de coco e convidam a um almoço fresquinho debaixo de estruturas de bambo. Os nossos amigos estavam atrasados e fomos almoçar, numa das quantas barracas para o efeito. O serviço era simples, pitoresco e genuíno, o peixe era só ir escolhe-lo na grelha, o acompanhamento era Katupa (foi a primeira vez que comemos e é delicioso) Katupa é arroz cozido dentro das fitas de palmeira. Para beber água de coco e para a sobremesa nada melhor que é comer depois o coco.

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Peixe seco à moda da Praia da Vieira 🙂

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Sacada de algas comestíveis

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O aspecto não é o melhor, mas este peixinho e esta Katupa souberam-nos muito bem

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Cenas de um quotidiano de trabalho

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Cenas de um quotidiano de trabalho

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Posição habitual dos timorenses

 

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Cenas do quotidiano

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