Timor Leste – A chegada

Como duas pessoas diferentes que somos, é normal que cada uma tenha a sua opinião, por isso achamos interessante em alguns textos cada um escrever o seu texto e relatar a forma como vive a experiência e como vê o país.

Timor – O impacto
Escrito por Katy Deodato

Confesso que ou por desinteresse ou por ainda ser nova quando se falava de Timor em Portugal, tinha apenas uma vaga ideia sobre a história de Timor. Que tinha sido uma colónia portuguesa, havia forte ligação a Portugal pela ajuda que havíamos ter dado ao país na luta da sua independência e mais umas coisas soltas sem ordem cronológica. Mas fiquei sempre com a vontade de conhecer o país que do outro lado do mundo sabia onde é que Portugal ficava no mapa. Antes de vir para aqui li vários artigos sobre Timor, que estava em desenvolvimento, era o mais novo país do mundo (12 anos de existência), haviam encontrado petróleo ao largo da ilha e que isso seria muito bom para economia, era um país a erguer-se e a desenvolver-se. A língua portuguesa era uma das línguas oficiais juntamente com o Tétum e que a moeda era o Dollar Americano. Li sempre artigos que me deram uma ideia de evolução rápida, que já tinham construído, isto e aquilo, que o país estava no bom caminho, a renascer e a desenvolver-se. No meio de tanta leitura, também estava bastante esperançosa em conhecer o povo timorense, onde sempre li maravilhas deste povo. Mas nenhum artigo me preparou para encarar a verdadeira realidade de Timor. Foi um impacto quando aterrei na capital e vejo uma cidade ainda tão pouco desenvolvida, em obras, pó por todo lado, com uma pobreza à vista de todos, esgotos a céu aberto. O trajecto do aeroporto até  à escola (cerca de 10km) foi uma mistura de sentimentos, foi quando a ficha caiu, foi quando os nervos e a ansiedade começaram a tomar conta de mim, foi quando realmente tomei a verdadeira consciência do que estava a fazer. Confesso que não tinha mesmo noção quando estava em Portugal do que era vir para um país como Timor. Do que realmente um voluntariado era, não tinha noção daquilo que estava a fazer e do que estava a ver e a viver. Recordo este dia com muita intensidade, eu nunca vou esquecer o impacto que este dia teve em mim.

Chegamos à escola e todos queriam ver, cumprimentar, falar com os novos professores. Os miúdos estavam contentes com a nossa chegada, toda a gente estava contente com a nossa chegada, toda a gente nos sorria. Impressionante! Há momentos que nunca vou conseguir relatar. Eu não tinha qualquer expectativa sobre o sítio onde íamos ficar, nem fazia a mínima ideia onde é que era (por email quando estávamos em Portugal não nos deram muita informação e nós também nem éramos chatos com perguntas). E talvez por isso nunca me tinha posto a imaginar como seria o sítio onde iria viver durante três meses. Chegados à escola disseram-nos que alunos e professores dormiam nas instalações, dormitórios e quartos para o efeito. Foi quando nos apresentaram o nosso espaço. Confesso que bati mal. É mesmo hardcore a sensação. Olho para o quarto e para a casa de banho, e digo ao Ricardo “Meu Deus é aqui que vamos viver?” Aquele sentimento de estranheza, de desconforto, de encarar a realidade demorou para aí uma hora. Tudo me passou pela cabeça, de repente recordo a minha casa, o meu sofá, a minha cama tudo o que deixei. Olho para o Ricardo e começamos a rir, olhamos à nossa volta e mais ou menos por estas palavras eu disse “que se (Piiiiiii) se eles vivem assim nós também havemos de viver”, “Nós viemos para isto!!!” começamos a desfazer as malas arrumar a roupa e a ajeitar o nosso quarto. Só faltava a moldura com a nossa família e amigos para ficar perfeito 🙂 🙂 rapidamente nos adaptamos à realidade e daqui para a frente era só facilidades, ou não. É incrível como o ser humano se consegue moldar às situações. Parece que encarnei numa outra pessoa, numa pessoa que sempre viveu nestas condições e que nada lhe metia confusão, nojo, falta ou medo!

Quando fomos apresentados à comunidade SOLS 

Nesse mesmo dia à noite fomos formalmente apresentados à escola, às 19h assistimos a uma oração com cânticos de várias religiões, sentamos-nos num cantinho meios envergonhados a tentar passar despercebidos no meio de umas 400 pessoas. Ouvir todos aqueles alunos e voluntários em coro foi mágico, a oração demorou cerca de 45 minutos. Depois disso uma professora ao microfone informou que haviam ter chegado dois voluntários portugueses às instalações, bem nem vos passa pela cabeça a gritaria e a euforia que foi enquanto caminhava-mos até ao centro para nos apresentarmos. Estava tudo de olhos postos na gente, nós estava-mos no meio daqueles alunos todos, nunca me senti tão observada. Passaram o microfone ao Ricardo e ele fez uma apresentação rápida de nós os dois. Ele que é envergonhado e não é nada destas coisas apenas disse os nossos nomes a idade e que vínhamos de Portugal, até eu que sou descontraída estar naquele lugar com toda a gente deixou-me nervosa. Mas foi tão bom ver a reacção deles parecíamos umas vedetas :). Depois eles queriam fazer muitas perguntas e ao mesmo tempo, respondemos a três que eram as mais comuns entre eles. Se éramos casados, se já tínhamos filhos, quantos irmãos tínhamos e quanto tempo iríamos ficar na escola. O interesse por nós não ficou saciado com aqueles minutos de conversa, terminada a apresentação fomos engolidos por grupos de alunos a tentar falar em português, a continuarem com as perguntas e a chamarem-nos de professores (isso também foi engraçado, até soava estranho para os nossos ouvidos). Aos poucos a euforia começa a acalmar, está a chegar a hora de se irem deitar e lá se vão dispersando, até que também nós vamos para o nosso quarto descansar e assimilar o dia intenso que tivemos.

Aquilo que nós estamos a fazer, largar os empregos, a vida confortável que tanto demora a construir, e ir atrás de um sonho, de uma vontade que é inexplicavelmente forte, é do caraças (para os mais sensíveis) é do car@lh000 (para os amigos mais íntimos)!!!

Timor – O choque
Texto escrito por Ricardo Santos

Depois de 10 dias na vibrante e super turística ilha de Bali, voámos pela Air Timor para o Aeroporto Nicolau Lobato em Dili, um viagem curta de 1h40. Na aproximação à pista vimos uma ilha muito montanhosa, um pouco seca e com um mar de águas de todos os tipos de azul.
Foi neste momento que começaram a voar as borboletas que eu tinha no estômago. Eu sei que era isto que queria e agora estava prestes a viver uma experiência que eu desejava que fosse inesquecível.
O Aeroporto de Dili é super pequeno. Só tem uma passadeira para a recolha de malas, tem apenas uma máquina de raio x e a organização é bastante desorganizada. A entrada no país foi fácil, rapidamente levamos um carimbo no passaporte e por sermos portugueses não pagamos visto e podemos permanecer no país por 90 dias.
À nossa espera estavam 2 cambojanos que eram professores na SOLS 24/7 (organização/escola que nos acolheu), o Mony e o Koran. Fomos na van que eles trouxeram em direcção à sede da SOLS.
Quando nós aceitámos fazer o voluntariado em Timor-Leste, já sabíamos que iríamos viver em condições básicas, mas uma coisa é imaginar outra coisa é viver a situação. Não vos vou mentir, a minha primeira impressão não foi nada boa. As instalações que nos foram destinadas eram feitas com paredes forradas de folhas de palmeira e o telhado era de chapa zincada, que lhe conferia um belo efeito de estufa. Tínhamos duas divisões um quarto e uma casa de banho. Nunca pensei em desistir, mas fiquei um pouco desanimado ao início. A nossa cama (duas camas individuais juntas) só tinha um colchão super fino e uma rede mosquiteiro verde (o mais importante), a casa de banho tinha apenas uma sanita e uma torneira com um alguidar para tomar banho.  A decoração era composta por um roupeiro de solteiro, uma estante mais um pequeno módulo de escritório com gavetas e uma cadeira. O chão era um mosaico com veios verde água todo mal colocado, no tecto tínhamos uma ventoinha, para a aliviar (mas pouco) o calor que se sentia dentro do quarto, parecia que estava melhor na rua do que dentro do quarto.
Tínhamos duas hipóteses, ou desesperávamos ou arregaçávamos as mangas e tentávamos aproveitar as coisas boas daquela situação. Decidimos pela 2ª hipótese e começámos a limpar o quarto arrumar as coisas, a instalar-nos.
A questão do quarto estava ultrapassada, mas o pior estava por vir, a comida!

A sede da SOLS em Dili alberga em regime de internato (só durante a semana) mais de 400 alunos e 50 professores. Todas essas pessoas comem na escola e sendo a SOLS uma organização sem fins lucrativos não podemos esperar que elaborem grandes refeições. Mas também não estávamos a espera de refeições tão básicas e tão pouco nutritivas.
O primeiro dia foi realmente difícil, sentamos no refeitório exclusivo aos professores  esperamos que nos servissem. Cada professor tinha direito a um prato de arroz (bastante arroz) e uma tigela de moelas. Quando vimos a refeição até que não nos pareceu mau, gostamos de arroz e de moelas, OK! Bem quando provamos a comida foi realmente difícil engolir. E quando eles nos perguntavam se gostávamos ainda foi mais difícil dizer que sim! A comida não tinha tempero nenhum, as moelas foram cozidas em água e apresentavam-se na tigela em forma de sopa. Nós nem somos muito esquisitos, mas naquele dia foi realmente difícil conseguir habituar o paladar à nova cozinha!

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